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Críticas
Expresso
Lisboa 7 Agosto 2004
Ana Ruivo
A uni-los, primeiro, uma coincidência no tempo, o convívio gerado ao longo de um período de formação na sala 3/27 da ESBAL. Depois, a alusão a essa referência primeva, transversal aos caminhos entretanto seguidos por cada um, permanecendo, para lá da determinação de geografias ou cronologias, como marcação cíclica de um tempo capaz de converter o que poderia ser mera curiosidade num interessante momento de encontro e reflexão sobre questões que atravessam os trabalhos de José Batista Marques, José Lourenço, Rui Macedo e Jorge Lancinha, aqui apresentados pela terceira vez como colectivo. Distantes já dos primeiros passos dados na híbrida presença do objecto pictórico em intentada fuga aos seus limites (materiais, conceptuais), assumem os quatro artistas, plenamente e com maturidade acrescida, a bidimensionalidade do suporte, as contingências do meio em que operam, como profícuo terreno de experimentação do espaço e sua representação. Um espaço construído no intervalo entre o reconhecimento do que se vê e um território simbólico e subjectivo. Há, no conjunto de trabalhos sobre papel apresentado por J. Lourenço, a presença de uma forte urbanidade, de uma arquitectura de silhuetas geometrizadas nascidas sob o signo da negritude a par do recorte orgânico das sombras dos arbustos. Mas aquilo a que temos acesso é apenas uma visão fragmentária e asséptica de uma paisagem, onde as presenças só se resgatam na pontual e distante presença da luz. Essa ideia de tempo nenhum, é igualmente trabalhada por R. Macedo num funesto voo que transforma o horizonte em mira, através das nuvens ou por entre os ciprestes, para lá de uma quietude que à memória trás a Ilha dos Mortos, de A. Böcklin. Levando ao extremo a marcação do lugar como conceito simbólico, J. Lancinha constrói um conjunto de labirintos e mandalas que fazem dos seus quadros não apenas um território de experimentação da pintura mas igualmente uma reflexão de carácter ontológico sobre o lugar do homem no universo. Bem distinto é o trabalho apresentado por J. B. Marques, que parte da representação de um lugar definido, uma cidade no norte da Europa, para a transformar num jogo tão enganador quanto sedutor de cenográficas perspectivas.
Jornal de Letras
Lisboa 21 Julho 2004
Rocha de Sousa
Este campo de trabalho, desde os anos sessenta, não tem cessado de crescer - um espaço de ideias e de produção dos jovens artistas, aberto cada vez mais à troca de informações, à procura de novas perspectivas de investigação e de desenvolvimento estético, lugar de lugares na dinâmica de outras presenças além da própria modernidade. Desta vez, quatro artistas plásticos reúnem-se na Galeria Ara, à semelhança do que fizeram em 1998, e procuram dar-se conta do trajecto efectuado ao longo deste tempo, as mudanças ocasionais, as mudanças por ordem da investigação, o confronto de ideias, o encontro de pontos de vista. Não se trata de um grupo organizado em volta de uma orientação teórica ou de uma afinidade técnico-formal. Cada autor tem a sua própria trajectória, embora esse princípio não se dissocie dos sinais do tempo que todos reflectem ou da realidade estética entretanto projectada no espaço do pensamento artístico.
As estruturas consolidadas pela galeria são especificamente, ou sobretudo, para autores que começam, por vezes «sem abrigo», e desenham «diários» fabulosos acerca da sua juventude em perda. Estamos quase no reino da metáfora, mas não de todo, diga-se a verdade: o suporte mecenático diversamente «contratado» pela galeria, aliás nos termos do mercado artístico e das bases iniciais de trabalho, tem dado assiduamente frutos seleccionáveis, aqui e nas feiras internacionais. Por muito que se avancem desconfianças quanto a este processo de recolha e expansão, sem levar em linha de conta os vazios, os jovens de talento cuja origem ou timidez mal chegam para bater às portas erradas, o certo é que, após graduações complicadas e havendo necessidade de um bom exercício identificador, muitos jovens artistas têm encontrado aqui, sem modas imperativas nem críticos orientadores, um cais possível, momentos de partida assinaláveis.
a inocência de novo, entre enigmas
Não tenho nenhuma razão para referir, no início destas notas, o caso de José Eduardo Batista Marques. É um autor cuja obra, em visita de «oficina», estava naturalmente exposta, recebendo a luz de uma alta janela - e o apelo da sua paisagem urbana abriu campo ao trabalho de registo fotográfico.
Vejo-o num outro tipo de composição, em 1998, também na mesma companhia, a quem Carlos Vidal incluía na «vocação materiológica» das obras de todos, recorrendo a um termo de Jean Fautrier e a um informalismo de hibridez relativa ao espaço pictórico e ao próprio comportamento das matérias (1). José Batista Marques, tentando achamentos mais libertos pela liberdade interna da Escola do que por uma convicção ideológica instalada, produzia objectos inúteis, indagava a madeira e os fios eléctricos, entre outras vias colonizantes mas aceitavelmente entendidas.
Mais tarde, em 2001, reunidos de novo estes autores, as obras apresentadas retomam ao universo da pintura em si, cada artista parece ter-se libertado dos alinhamentos técnicoformais assumidos na Escola, encontrando-se com a pesquisa de um antigo processo do fazer. Vidal, no texto do catálogo, anota que, posteriormente, estes pintores que ele seguiu em bons entrosamentos escolares, durante quatro anos, surgiram para a necessidade de simbolizar, «cruzamento último que pressupõe a presença da mão como agente daquilo que é apresentado e, ao mesmo tempo, uma determinada e heterodoxa religiosidade» (1). Do objecto sem nome, Batista Marques, dois anos depois, realiza uma pintura de palavras e rostos rasurados, como se tivesse voltado à infância para reacertar os caminhos - «DE SI-GNS OF NATURE: MOCHO», por exemplo, um sopro de iniciação notavelmente fingida.
a necessidade vitalizadora da mão
Aliás, Jorge Lancinha seguiu percursos idênticos: uma das suas peças de 1998, «You could stay here I» constituía-se (dentro de um certo desconforto bem conseguido) por matérias como o ferro, a madeira, vidro e algodão. A forma objectual poderia identificar-se, sem esforço, como um espelho de quarto, já incapaz de reflectir, e um suporte em baixo, como parelilipípedo, lugar onde o algodão, em excesso, evocava o tempo e as feridas da morte. Mas em 2001, Lancinha reentra na matéria plástica, explora formulações densas e quentes, fala-nos, como em «nebulosa 0001», de criações orgânicas, algo da proliferação da matéria e dos astros, ou talvez, espreitando pelo Hubble, a própria infinitude das nebulosas e das galáxias que todos os dias revelam novos fenómenos inexplicáveis.
Agora, em 2004, Jorge Lancinha, talvez manejando a matemática numa outra dimensão, produz padrões modulares, bem inventados no entrosamento, embora, de perto, a sensibilidade técnica da mão trabalhando sem meios rigorosos de apoio se faça sentir, palpitando numa geometria de labirinto.
outras revisitações
Rui Macedo apresentava em 1998 telas de grande formato, sombrias, cobertas por muros talvez sobrepostos, arquitecturas em fim de tarde, um resto de luz matinal no limite superior dos quadros. Estava-se perante uma proposição potencialmente muito rica, sem título e porventura desnecessariamente com data . Mais tarde, o sonho da madrugada urbana, passa ao domínio de paisagens sub-aquáticas (ou talvez assim), exprimindo uma tecitura de seres elementares, um outro tipo de cidade - um mundo interior a que o artista pode chamar, num dos casos e sem grande deslize, «auto-retrato».
O lado conceptual que emergia de alguns dos trabalhos anteriores de Rui Macedo, serve, em 2004, para questionar espaços aparentemente opostos - um céu azul denso, bordado por nuvens opacificando-se atrás de um rectângulo onde, em tons quentes, se narram módulos tridimensionais. O homem desenvolve transparências modulares, vidros translúcidos com geometrias racionais, mas, neste caso, para as confrontar com a atmosfera revolta do habitat terreno donde nos chega quase tudo - o impulso das formas e a ideia de as transformar em utilidades quotidianas.
Mas não se trata apenas disso: módulo, arquitectura, espaço, desfocagem nevada, tudo isso articula uma das suas mais belas obras de hoje: um corredor entre muros, morrendo na perspectiva, e a cadência descendente de duas filas de ciprestes.
José Lourenço também indagou a formatação de objectos que sugerem partes de máquinas eléctricas, restos de impressoras, perfeições de uma funcionalidade desconhecida. «Prisão dos Sentidos» entrava nessa linha. O mistério desta realidade plástica, tocada de perto pela produção industrial contemporânea, deixa-nos aquém de referências concretas: identificamos a natureza das coisas mas a nossa percepção, fragmentada, cede à armadilha das formas. Lourenço é um dos mais coerentes pesquisadores deste grupo. «A floresta de nós mesmos», em 2001, reedita a ilusão da tridimesionalidade representada no espaço plano, uma arquitectura translúcida, oriental, com sombras chinesas nas paredes ou no interior, e na qual só podemos imaginar mesas baixíssimas e um silêncio de paisagem em volta.
Os trabalhos actuais de José Lourenço, em acrílica sobre papel, de grande rigor formal, mostram outras arquitecturas - arcos de óculos, reflexos nivelados, um azul serigráfico em torno de tudo.
(1) referência ao texto de Carlos Vidal, catálogo de 98, Ara, título: «Da matéria à matéria simbólica»
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